Por que me falas nesse idioma?
perguntei-lhe, sonhando.
Em qualquer língua se entende essa palavra.
Sem qualquer língua.
O sangue sabe-o.
Uma inteligência esparsa aprende esse convite inadiável.
Búzios somos, moendo a vida inteira essa música incessante.
Morte, morte.
Levamos toda a vida morrendo em surdina.
No trabalho, no amor, acordados, em sonho.
A vida é a vigilância da morte,
até que o seu fogo veemente nos consuma sem a consumir.
(Cecília Meireles)
Desejar a morte de si mesmo não é crime. Ou, pelo que me consta, não há registro disso na minha velha e maltratada memória. Tampouco há os velhos e empoeirados códigos legais esquecidos na estante podem me julgar.
Mas se há a repulsa que enoja quem de fora o percebe, então, que direito tenho eu à vida? Viver é uma obrigação?
Morrer, desistir, pular, cessar. Que é morrer afinal? É deixar de existir, de querer, decidir, sobreviver, persistir. Ou seria cansaço apenas? Talvez fosse só uma certa irritação com a pontualidade extrema dos ponteiros na parede da cozinha, avisando que um segundo já passou e que o próximo já está a beira do parto. E assim é... irrefutável, imperdoável, indefectível.
Amar a morte não é deixar de viver, é homologar uma vida que não existe, que não tem sentido de ser. Amar a morte é abdicar de um passado emoldurado em ilusões de "biscuit" e "emoticons" - é não enxergar nenhum horizonte em meio a uma cidade de pedra repleta de arranha-céus gigantescos.
***
--Tá bom, tá bom!, ela blasfema ao mesmo tempo em que deseja espatifar o ridículo despertador de porquinho reminiscente da sua infância.
--Tô indo... tô indo... E então ela levanta meio bêbada de sono, arrumando as alças da camisola e já buscando o vidro de fluoxetina caído no chão. É mais um dia, mais um estoque de máscaras de carnaval, mais um desejo de morte incrustado no coração...
--Bom dia,senhor. Em que posso ajudar?





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