La Strega di Ravenna


29/05/2008


 

(Autor, nome e ano desconhecidos. Gentilmente cedido por Google Imagens)

 

 

“Estou pensando nos que possuem a paz de não pensar,
Na tranqüilidade dos que esqueceram a memória
E nos que fortaleceram o espírito com um motivo de odiar.
Estou pensando nos que vivem a vida
Na previsão do impossível
E nos que esperam o céu
Quando suas almas habitam exiladas o vale intransponível.
Estou pensando nos pintores que já realizaram para as multidões
E nos poetas que correm indefinidamente
Em busca da lucidez dos que possam atingir
A festa dos sentidos nas simples emoções.
Estou pensando num olhar profundo
Que me revelou uma doce e estranha presença,
Estou pensando no pensamento das pedras das estradas sem fim
Pela qual pés de todas as raças, com todas as dores e alegrias
Não sentiram o seu mistério impenetrável,
Meu pensamento está nos corpos apodrecidos durante as batalhas
Sem a companhia de um silêncio e de uma oração,
Nas crianças abandonadas e cegas para a alegria de brincar,
Nas mulheres que correm mundo
Distribuindo o sexo desligadas do pensamento de amor,
Nos homens cujo sentimento de adeus
Se repete em todos os segundos de suas existências,
Nos que a velhice fez brotar em seus sentidos
A impiedade do raciocínio ou a inutilidade dos gestos.
Estou pensando um pensamento constante e doloroso
E uma lágrima de fogo desce pela minha face:
De que nada sou para o que fui criada
E como um número ficarei
Até que minha vida passe.”

 

(Adalgisa Nery)

 

 

***

 

São 6h08 da manhã quando o sarcástico trim-trim-trim me atira consciência abaixo. E antes que as pequenas (in)decisões cotidianas sejam tomadas, eu ainda penso na completa falta de sentido que o alvorecer me traz. “Acorda!”, eu ouço ruidosamente dentro da cabeça. “Acooooooorda!”, e o estrondo é maior. E eu acordo. Mas não totalmente, porque parece que durante o dia eu ainda permaneço imersa em tolas ilusões feitas com bola de sabão e água mineral. Parece tão bonito, colorido e transparente... mas basta um estalo e puft! Já era...

 

--Talvez a abstinência nunca passe, Raven.

 

É... talvez. Pode ser que seja assim mesmo, pensei. Mas de qualquer forma, eu preciso acordar. Acordar e deixar de lado as bolinhas de sabão, as bonecas de louça e as outras promessas de criança que eu precisei acreditar. “Acorda!”. Acorda e deixa de ser o brinquedinho na estante empoeirada da mesa ao lado. Acorda de uma vez e despreza essas migalhas de amor que não enchem a barriga de ninguém. Acorda... nem que seja para ficar insone por tempo indeterminado, até cansar de ser boneca, até perceber que ser brinquedo uma hora cansa - cansa quem brinca e quem se deixa brincar. Cansa e fica ali, o brinquedo encostado no canto...

 

Escrito por La Strega às 17h19
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28/05/2008





(Damien Rice – Rootless Tree)


”what i want from you
is empty your head

they say be true,
don't stain your bed
we do what we need to be free
and it leans on me
like a rootless tree
what i want from us
is empty our minds

we fake a fuss
and fracture the times
we go blind
when we've needed to see
and it leans on me
like a rootless...
so fuck you, fuck you, fuck you
and all we've been through
i said leave it, leave it, leave it
it's nothing to you

and if you hate me, hate me, hate me
then hate me so good that you can let me out
let me out of this hell when you're around
let me out, let me out,
let me out of this hell when you're around
let me out, let me out,


what i want from this
is learn to let go

no not of you
of all that's been told
killers reinvent and believe
and this leans on me
like a rootless...
so fuck you, fuck you, fuck you
and all we've been through
i said leave it, leave it, leave it,
it's nothing to you
and if you hate me, hate me , hate me,
then hate me so good that you can let me out , let me out, let me out
let me out of this hell when you're around
let me out...
and fuck you, fuck you, i love you
and all we've been through
i said leave it
it's nothing to you
and if you hate me
then hate me so good that you can let me out
let me out...
it's hell when you're around”
***


Ainda conservo aquela velha mania de bisbilhotar o seu horóscopo todas as manhãs, antes do café da Dona Bené chegar à minha mesa para abrandar a crueza do dia que começa. Mas é claro, eu também analiso bem os conselhos do meu signo – mesmo que eles me pareçam como um trote na maioria das vezes. E é engraçado que eu sempre me lembro de você dizendo que esse costume de consultar os astros virou uma rotina por minha causa. Será? Besteira! Ou não? Um tanto mais estranho é que eu passei a acreditar que tenho esse poder misterioso de saber o que te acontece e o que se passa no seu coraçãozinho de melão por conta dos conselhos malucos que a transição lunar insiste em dar.

Uma vez, até as cartas do tarô mandei tirar. Antigamente eu acreditaria seriamente em cada uma daquelas molduras medievais postas de frente ao meu olhar – hoje, não. Hoje, não mais. Talvez seja culpa desse fio branco que insiste em crescer no meio da minha cabeça eventualmente a cada mês, ou vai ver que o culpado por esta descrença absoluta seja o caminho tortuoso que Me fizeram perseguir desde então. Mas não importa. Interessa é que essas ilusões bobas aquecem vez ou outra o meu ego e eu acabo pensando comigo mesma: “eu sabia!”, sempre que uma notícia do além mundo chega até mim.

É, eu sei. Teoricamente eu tenho mais o que fazer. Teoricamente nada disso teria que me importar. Mas acontece que como eu não consigo tirar à força esse novelo de lã enrolado dentro do meu estômago, o jeito é tratar homeopaticamente. E isso leva tempo... Leva tempo. Primaveras, talvez... aniversários, quem sabe...

Leva tempo, amor... leva tempo até a abstinência acabar e eu sequer me lembrar que dia acreditei nesse tipo de bobagens...

Escrito por La Strega às 11h30
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