
(Autor, nome e ano desconhecidos. Gentilmente cedido por Google Imagens)
“Estou pensando nos que possuem a paz de não pensar,
Na tranqüilidade dos que esqueceram a memória
E nos que fortaleceram o espírito com um motivo de odiar.
Estou pensando nos que vivem a vida
Na previsão do impossível
E nos que esperam o céu
Quando suas almas habitam exiladas o vale intransponível.
Estou pensando nos pintores que já realizaram para as multidões
E nos poetas que correm indefinidamente
Em busca da lucidez dos que possam atingir
A festa dos sentidos nas simples emoções.
Estou pensando num olhar profundo
Que me revelou uma doce e estranha presença,
Estou pensando no pensamento das pedras das estradas sem fim
Pela qual pés de todas as raças, com todas as dores e alegrias
Não sentiram o seu mistério impenetrável,
Meu pensamento está nos corpos apodrecidos durante as batalhas
Sem a companhia de um silêncio e de uma oração,
Nas crianças abandonadas e cegas para a alegria de brincar,
Nas mulheres que correm mundo
Distribuindo o sexo desligadas do pensamento de amor,
Nos homens cujo sentimento de adeus
Se repete em todos os segundos de suas existências,
Nos que a velhice fez brotar em seus sentidos
A impiedade do raciocínio ou a inutilidade dos gestos.
Estou pensando um pensamento constante e doloroso
E uma lágrima de fogo desce pela minha face:
De que nada sou para o que fui criada
E como um número ficarei
Até que minha vida passe.”
(Adalgisa Nery)
***
São 6h08 da manhã quando o sarcástico trim-trim-trim me atira consciência abaixo. E antes que as pequenas (in)decisões cotidianas sejam tomadas, eu ainda penso na completa falta de sentido que o alvorecer me traz. “Acorda!”, eu ouço ruidosamente dentro da cabeça. “Acooooooorda!”, e o estrondo é maior. E eu acordo. Mas não totalmente, porque parece que durante o dia eu ainda permaneço imersa em tolas ilusões feitas com bola de sabão e água mineral. Parece tão bonito, colorido e transparente... mas basta um estalo e puft! Já era...
--Talvez a abstinência nunca passe, Raven.
É... talvez. Pode ser que seja assim mesmo, pensei. Mas de qualquer forma, eu preciso acordar. Acordar e deixar de lado as bolinhas de sabão, as bonecas de louça e as outras promessas de criança que eu precisei acreditar. “Acorda!”. Acorda e deixa de ser o brinquedinho na estante empoeirada da mesa ao lado. Acorda de uma vez e despreza essas migalhas de amor que não enchem a barriga de ninguém. Acorda... nem que seja para ficar insone por tempo indeterminado, até cansar de ser boneca, até perceber que ser brinquedo uma hora cansa - cansa quem brinca e quem se deixa brincar. Cansa e fica ali, o brinquedo encostado no canto...



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