
"Hoje desaprendo o que tinha aprendido ontem
E que amanhã recomeçarei a aprender.
Todos os dias desfaleço e desfaço-me em cinza efêmera:
todos os dias reconstruo minhas edificações, em sonho eternas.
Esta frágil escola que somos, levanto-a com paciência
dos alicerces às torres, sabendo que é trabalho sem termo.
E do alto avisto os que folgam e assaltam, dono de riso e pedras.
Cada um de nós tem sua verdade, pela qual deve morrer.
De um lugar que não se alcança, e que é, no entanto, claro,
minha verdade, sem troca, sem equivalência nem desengano
permanece constante, obrigatória, livre:
enquanto aprendo, desaprendo e torno a aprender."
(Cecília Meireles)
***
Não é o que eu sei hoje, não é a experiência de agora que me faz diferente de antes. O que um amanhecer destrói de ontem, refaz o que vem pela frente e nada nunca está completo, porque tudo é relação. Ilusão é pensar sobre os fatos como inteiriços e concretos – porque tudo muda. Se um dia funcionou, é bem provável que hoje o mecanismo seja outro. Tudo muda.
Mais além da epistemologia das coisas, há também a das pessoas. E há o que sabemos sobre elas. Pensa-se que o que se vive com alguém durante anos é suficiente para conter-lhes alguns tipos de rituais de comportamento. Pensa-se que de uma forma mais ou menos desviante, elas serão o que eram há tempos atrás. Ilusão. Tudo muda.
E nos meandros do cotidiano, dos dias que envelhecem com a gente e do saldo emocional que resta, fica o hoje. Ilusão. Tudo, tudo muda.



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