La Strega di Ravenna


30/10/2008





(Matanza - Tempo Ruim)
(carinhosamente emprestado de youtube.com.br)


"Ergam seus copos por quem vai partir
Longo será o caminho a seguir
Nada será como costuma ser
Nada vai ser fácil pra você


Não faça o mesmo que fez o seu pai
Não leve armas lá onde vai
Tantos eu já vi pagando pra ver
Não dá tempo de se arrepender
Nada que já não deva Saber
Não há nada que não possa ter


Quero que a estrada venha sempre até você
E que o vento esteja sempre a seu favor
Quero que haja sempre uma cerveja em sua mão
E que esteja ao seu lado, seu grande amor


Eu me despeço de todos vocês
Muitos aqui não verei outra vez
Fora o inverno e o tempo ruim
Eu não sei o que espera por mim
Mas pouco importa o que venha a ser
Se eu tiver um dia a quem dizer


Quero que a estrada venha sempre até você
E que o vento esteja sempre a seu favor
Quero que haja sempre uma cerveja em sua mão
E que esteja ao seu lado, seu grande amor."


É assim, quando a porta se fecha estrondosa atrás de mim e no quarto permanece apenas a escuridão. É assim, eu ainda ouço qualquer coisa vinda de outro quarto - talvez seja a televisão, talvez não, e daí? Assim... eu volto ao meu mundo, onde as máscaras se dissipam com o ar, onde eu não preciso dizer nada para convencer pessoa alguma.

É onde eu posso de verdade me despir. Nua novamente, inteiramente nua, eu, o espelho e o lençol estendido.

Silêncio.

Ninguém para cobrar, pessoa alguma para receber. Livre e nua. Livre... Não há conforto a dar, não há carinho, consolo ou advertência. Sou eu ali. Até amanhã, sou eu de novo.

...sou eu até amanhecer, sou eu até a persona retornar e tudo voltar a ser como sempre foi.

Escrito por La Strega às 23h20
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14/10/2008






Babe, baby, baby, I´m gonna leave you.
I said baby, you know I´m gonna leave you.
I´ll leave you when the summertime,
Leave you when the summer comes along.
Leave you when the summer comes along.


Baby, baby, I don´t wanna leave you,
I ain´t joking woman, I got to ramble.
Oh, yeah, baby, baby, I won´t be there,
Really got to ramble.
I can hear it calling me the way it used to do,
I can hear it calling me back home.


I know, I never leave you, baby.
But I got to go away from this place, I’ve got to quit you.
Ooh, baby,
Baby, ooh don´t you hear it calling?
Woman, woman, I know, I know it’s good to have you back again
And I know that one day baby, it’s really gonna grow, yes it is.
We gonna go walking through the park every day.
Hear what I say, every day.
Baby, it’s really growing, you made me happy every single day.
But now I´ve got to go away
Baby, baby, baby, baby
That´s when its calling me
That´s when its calling me back home...

(Led Zeppelin – Babe, I´m gonna leave you)

A luz da rua invadia a minúscula fresta na janela, criando contornos engraçados sob a parede em meio à madrugada. 3 ou 4 horas de uma manhã quente e abafada, num tempo impreciso no descanso de Helios . Nus, nós dormíamos. Digo, ele dormia.

Desperta, eu prestava atenção em sua respiração leve, que vez ou outra se agitava num sonho desconexo – eu imaginava – ou quem sabe, permeado de angústias pequenas e provavelmente já esperadas. Talvez. Talvez ele pudesse de alguma forma prever em sonho que logo eu não estaria ali. Talvez eu já não estivesse ali há bastante tempo, sem que ambos pudéssemos perceber. Mas... para onde ir, eu também não fazia idéia.

Deixei meus dedos deslizarem sobre suas costas, mas tão suavemente e devagar, que ele sequer acordou. E não deveria mesmo acordar, não deveria escutar o que ressoava dentro de mim, em algum lugar sombrio entre o coração e o cérebro. “Babe, baby... I´m wanna leave you”. Não era a hora. Mas então, quando seria? E se eu fosse mesmo embora, para onde iria? Decidi ficar.

“E se eu fechar os olhos”, pensei,“será que consigo enxergar melhor do que isso?” E como não consegui de mim uma resposta minimamente convincente, virei-me para a parede, puxei a metade do edredon que sobrava para ele e deixei estar. Não era hora... e quando seria?

Escrito por La Strega às 19h24
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10/10/2008






”May I take you higher
Feed well your desire
We won't be forgotten
Foes left slain and rotten
I will have my way as once before
Others stand in awe can't scorn at all
I can, I can, I can make it all again
I don't wanna lose, I don't wanna get drowned
I can, I can, I can heed the call again
Fulfil my dreams until I'm cured
I can
Will I be the flyer
Keep you more inspired
Some will leave here shattered
Wish us tarred and feathered
Show me anyone who doubts our ways
I will laugh out loud and I will say
I can, I can, I can make it all again
I don't wanna lose, I don't wanna go down
I can, I can, I can make the call again
Can attain everything to leave you sure
I can


Leave me waiting years or strike today
Trample down the walls and pave your way
I can, I can, I can...
Fulfil my dreams until I'm cured”

(Helloween – I can)


Retroceder nem sempre é inútil, pensava eu, remoendo os últimos acontecimentos por aproximadamente dois segundos antes de entrar em sala de aula. Blá, blá blá e mais blá, dizia qualquer coisa a professora de sotaque sulista. A última cadeira esquecida e invisível aos olhos dela esperava por mim no canto da sala, e eu, então, caminhei como se condenada fosse – dia difícil, noite difícil, sensação terrível de ter jogado no lixo qualquer coisa que antes eu devia ter lutado.

--Ei.
--Hum.

O senhor de óculos engraçado e sorriso metálico me estendeu uma bala de caramelo, daquelas bem quadradinhas que você devora aos punhados em menos de cinco minutos.

--Dias melhores virão, disse ele virando-se para a professora.

Razão ele tinha. E mais doce do a razão que ele tinha e mais doce ainda do que o quadradinho que ele me deu, foi sentir o meu peito aliviado, como se tivesse sido medicada com qualquer gota (caramelada e bem doce) de esperança que de novo me fez acreditar.

Sim, dias melhores virão.

E, de fato, eles vieram.

Daí eu fico pensando: pode ser que caramelos e esperança tenham de vir aos poucos, inesperadamente e sem preparo: vai ver que é assim que eles se tornam mais sedutores e gratificantes com o tempo...

Escrito por La Strega às 23h18
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08/09/2008


 

 

"Hoje desaprendo o que tinha aprendido ontem
E que amanhã recomeçarei a aprender.
Todos os dias desfaleço e desfaço-me em cinza efêmera:
todos os dias reconstruo minhas edificações, em sonho eternas.

 

Esta frágil escola que somos, levanto-a com paciência
dos alicerces às torres, sabendo que é trabalho sem termo.
E do alto avisto os que folgam e assaltam, dono de riso e pedras.
Cada um de nós tem sua verdade, pela qual deve morrer.

 

De um lugar que não se alcança, e que é, no entanto, claro,
minha verdade, sem troca, sem equivalência nem desengano
permanece constante, obrigatória, livre:
enquanto aprendo, desaprendo e torno a aprender."

 

(Cecília Meireles)

 

***

 

Não é o que eu sei hoje, não é a experiência de agora que me faz diferente de antes. O que um amanhecer destrói de ontem, refaz o que vem pela frente e nada nunca está completo, porque tudo é relação. Ilusão é pensar sobre os fatos como inteiriços e concretos – porque tudo muda. Se um dia funcionou, é bem provável que hoje o mecanismo seja outro. Tudo muda.

 

Mais além da epistemologia das coisas, há também a das pessoas. E há o que sabemos sobre elas. Pensa-se que o que se vive com alguém durante anos é suficiente para conter-lhes alguns tipos de rituais de comportamento. Pensa-se que de uma forma mais ou menos desviante, elas serão o que eram há tempos atrás. Ilusão. Tudo muda.

 

E nos meandros do cotidiano, dos dias que envelhecem com a gente e do saldo emocional que resta, fica o hoje. Ilusão. Tudo, tudo muda.

 

Escrito por La Strega às 17h33
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01/09/2008




(Moonspell – Nocturna)


High heels of crystal
stuck in the heart
daylight that heals
the fullmoon scars
Spider strategy
and the wish to be
at one with me
throughout the fright


It is so real
So full of light
(when) Nocturna steals the night


Sister of cain
all our breed slain
the youthful oath
remains the same
le mal de vivre
that never ends
but the hunt (for you) goes on
throughout the night


It is so real
So full of light
(when) Nocturna steals the night


--É que depois que a festa acaba, sobra o lixo.
--Arram, e sobra também um monte de louça suja pra lavar.
--É. Quando a bebedeira passa, difícil é arranjar uma qualquer coisa pra tirar da cabeça a pressão da ressaca.
--E as escolhas?
--E quando eu penso que foi escolha minha...
--Isso a gente não pode discutir! Você nem pode reclamar.

Tirando nos dentes um quilo e meio de cutícula do mindinho: --Tô me sentindo um verdadeiro idiota.
--E quem de nós está imune desse tipo de bobagem, seu tolo?
--Nenhum, nenhum de nós está. E sabe o que é o pior de tudo?
--Não.
--É que os fantasmas continuam lá. E eles vão te perseguir e te esperar – digo, me perseguir, me esperar.
--Esperar?
--Esperar até que eu pare e converse com eles. Não tem jeito.
--É... parece mesmo que os “seus” fantasmas não te deixaram em paz ainda.
--Ainda não. Mas dessa vez, dessa vez eu sei que fui em quem os procurou.
--O jeito é esperar.
--Esperar pra passar.

(...)


Impulso é uma coisa perigosa. Desejo é uma coisa perigosa. E o preço é alto.
E não tem prestação, nem parcela no cartão de crédito. É tudo de uma vez e o Desejo cobra sem piedade.
O jeito é pagar.
Pagar e esperar.

Escrito por La Strega às 15h08
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29/07/2008





(Isis- In fiction)


Through fiction we saw The Birth
Of Futures Yet to come
Yet in Fiction lay the Bones
Ugly in their nakedness


Yet under this Mortal Sun
We cannot hide Ourselves



***

Saudade. Infinita e descabida saudade que permanece.
Só. Saudade e só.


--Non c´é niente da dire, ragazza! Quante volte ho bisogno di parlare questo?!
--Si, anch´io lo so. Non c´é più niente da dire, niente da trovare tra noi dopo tutta la strada che abbiamo fatto scissi. Però, anche se tutte le foto stiano stracciate e adesso altri tattuagi macchiano nostro cuore, ancora c´é la musica. E lei, più di qualunque cosa che possiamo vedere e tocare, lei ti porta di nuovo insieme di me (...)

Escrito por La Strega às 15h17
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27/07/2008


“Uma das coisas que aprendi é
que se deve viver apesar de.
Apesar de, se deve comer.
Apesar de, se deve amar.
Apesar de, se deve morrer.
Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de
que nos empurra para a frente.”

(Clarice Lispector)

 

***

 

Não importa quando, não interessa o se. Tudo a seu tempo, cada grão de poeira em seu canto. Tudo em desordem, nada em vão. Viver e arriscar, não me preocupa o porquê.

Escrito por La Strega às 21h37
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22/07/2008


(Há muito tempo atrás, qualquer dia entre os últimos de 2006, longe, longe daqui.)

 

"O rosto em que me encontro
e que a nuvem contempla
vai-se mudando noutro
só pelo que relembra.

De caminhos andados,
se levanta e suspira,
contando sonhos gastos
e palavras perdidas.

Tudo o que parecia,
tudo quanto não era,
tirou-lhe o gosto à vida
e a ternura da terra.

Guardei para o silêncio
os tempos de renúncia:
quando meus sonhos penso,
vejo que sempre é nunca.

E é tão bela a tristeza,
que nem o amor alado
deixará dentro dela
mais que um desenho vago.

(Areia que aparece
dentro de águas que fogem,
sinto que te disperses
pela memória, longe...)

(Cecília Meireles)

 

***

Aqueles pequenos pedaços coloridos de plástico no caleidoscópio me lembram muito os arrependimentos. Alguns parecem menos dolorosos que outros, a se enxergar desta ou daquela outra maneira - tudo uma questão de óptica.  Tomemos as fotos por exemplo: um ímpeto de profundo ódio se apodera das suas mãos nervosas e em menos de três segundos estão elas todas rasgadas e jogadas ao vento, ao lixo ou ao mundo que em breve as engolirá. E para não deixar vestígios, os arquivos são deletados e os negativos queimados, fazendo-se entender qualquer ritual de despedida e orgulho próprio.

 

Mas o interessante da história é que à medida em que os dias caem e a alma envelhece, estranhamente os fragmentos de papel fotográfico se encaixam na memória e não importa quão longe ou reciclados estejam, eles permanecem intactos num lugar qualquer dentro da gente. E é então que emerge sabe-se lá de onde, um certo arrependimento de tê-los despedaçado com tanto ardor um dia, porque ao que tudo parece, já não dói mais. Ao contrário: eles se misturam à saudade dos bons e não esquecidos momentos, cravados e irrefutáveis, estrategicamente amarrados na história de cada um.

 

***

 

--Bobagem, eu sei. Você vai dizer que não há nada a dizer. É que eu, eu só queria.. Eu só queria perguntar se você ainda tem aquelas fotos, as fotos daquela viagem e aquelas outras do casamento do... Não, não. Bobagem, desculpa, deixa pra lá, eu só... eu só queria que não fosse um monólogo isso tudo, eu só queria ter a coragem de realmente conseguir te perguntar...

 

Escrito por La Strega às 13h59
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17/07/2008





(SOAD – Lonely Day)



Such a lonely day
And its mine
The most loneliest day of my life


Such a lonely day
Should be banned
This day that I can't stand


The most loneliest day of my life
The most loneliest day of my life


Such a lonely day
Shouldn’t exist
A day that Ill never miss
Such a lonely day
And its mine
The most loneliest day of my life


And if you go, I wanna go with you
And if you die, I wanna die with you
Take your hand and walk away


The most loneliest day of my life (…)


Such a lonely day
And its mine
A day that I’m glad I survived



Somos eu, a tarde quente detrás da janela azul, uma xícara de café pela metade descansando sobre a mesa e uma blusa de mangas compridas que me remete a uma tola sensação de que posso estar constantemente abraçada. Um dia que não passa nunca. Eu e mais quatorze pessoas. Eu e o telefone que não se cala, eu... e as decisões que eles extraem de mim todo o tempo, mesmo que desde a última madrugada fria até o alvorecer ainda mais gélido, eu só tenha desejado exterminar a maturidade. Pudera eu ser pequena de novo, pequena como Isabela, pequena como qualquer coisa sem grandes desejos, pequena como um punhado de dobrinhas e com cheiro de leite.

Mas não importa quão traiçoeira tenha sido a noite, irrelevante é a vontade de estraçalhar o despertador e mandar o relógio de ponto ao diabo. Hoje não tem sessão da tarde e também não tem Todinho. Hoje é dia de bater ponto, como qualquer dia no meio da semana. E de uma vez pro todas, não, não interessa se há no peito um desalento tão grande que chega a encobrir a falta que fez aquela ligação às dez da manhã, perguntando se estava tudo bem (mesmo que obviamente não estivesse). Bobagens... pequenas bobagens que fazem da gente um ser humano melhor.

Eu e mais tanta gente... mas a quem importa?

-- Não leva a mal, vai. É que agora não dá. Você me entende, todo mundo tem problemas.
-- É... eu tô ocupado, cansado, distraído, sei lá. Depois a gente conversa, pode ser?



***

Precisa não.
Importa não.
Um dia a menos, uma gelha a mais.
Eu e mais quinze.

Eu... e mais ninguém.

Escrito por La Strega às 17h23
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14/07/2008





(Gov´t Mule – Time to confess)


”Only the darkness can keep you warm
On an evil night like this
Are you looking for some one
To give your little arm a twist
Everybody needs some danger sometimes
I'm no different
Just think of me as your equal
I won't undress you
I won't hold you down
I won't stick a knife in your back

The way you did that clown


Can you feel it - can you taste it
Yeh, you must've seen it coming
Surely you could've guessed
The game is up
I'm gonna' take you down
No more crying
I think it's time to confess



You better pray for a miracle
Or you better pray this never ends
I, myself, can play the victim
I'll do whatever the part demands
You saw me watching you
You had time to run
Ain't it enough that you torture me
You had to go for his gun


Can you feel it - can you taste it
Yeah, you must've seen it coming
Surely you could've guessed
The game is up
I'm gonna' take you down
No more crying
I think it's time to confess


You won't see no bright lights burning
But you'll feel the heat
This is what happens
When strangers turn to lovers turn to enemies



Can you feel it - can you taste it
Don't look at me that way
With that blood on your dress
The game is up
I'm gonna' take you down
No more crying
I think it's time to confess”

***

Há algo de diferente aqui, desde que a escuridão se foi. A cicatriz – estranhamente eu diria, acabou deixando uma marca bonita, como se fosse uma daquelas tatuagens que a gente faz na adolescência e se lembra com carinho sempre que o espelho se revela. E tem um quê de brilhante também, algo pequeno mas de uma luz intensa, qualquer coisa como uma fagulha pronta a tornar-se um vulcão ao mais simples dos estímulos.

A minha força, ao que tudo indica, Ela voltou enfim.

E é engraçado como demorou tanto tempo para perceber o sussurro Dela nos meus ouvidos, todas as noites antes de dormir. As vezes Morrigan, outras vezes Rhiannon. Corvos e cavalos brancos vieram ter comigo até que eu percebesse que nada foi bom ou ruim em si mesmo: Ela,a Grande Tecelã, trama com cuidado os equinócios e solstícios que precedem as colheitas e é assim que se percebe que o caos organiza o todo e que a destruição é que inicia o recomeço.

A minha força... sim... Ela voltou enfim.

Escrito por La Strega às 11h47
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08/07/2008



Dizem? 
Esquecem.
Não dizem ?
Disseram.
Fazem?
Fatal.
Não fazem?
Igual.

Por quê
Esperar ?
Tudo é 
Sonhar.

(Fernando Pessoa)

 

"Carpe diem, ragazza!", ele me disse antes mesmo que eu pudesse terminar a história. Pra quê se importar com o amanhã, tanto desse jeito, se amanhã nem chegou ainda, se o que importa é o que há agora. Impermanência, indefinição. Agora eu sei, depois - depois não me pertence. Há beleza em viver o hoje, eu só preciso me acostumar. Acostumar a viver, simplesmente viver, sem nada desejar!
 

Escrito por La Strega às 12h28
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01/07/2008





(U2 – With or without you)


See the stone set in your eyes
See the thorn twist in your side.
I wait for you.
Sleight of hand and twist of fate
On a bed of nails she makes me wait
And I wait without you


With or without you
With or without you.


Through the storm, we reach the shore
You gave it all but I want more
And I'm waiting for you


With or without you
With or without you.
I can't live with or without you.


And you give yourself away
And you give yourself away
And you give, and you give
And you give yourself away.


My hands are tied, my body bruised
She´s got me with nothing to win
And nothing left to lose.


And you give yourself away
And you give yourself away
And you give, and you give
And you give yourself away.


With or without you
With or without you
I can't live
With or without you.


With or without you
With or without you
I can't live
With or without you
With or without you.


Não. Não há um único dia sem você aqui. Tem um pouco de você no resto de Nescau que insiste em permanecer na gaveta – mesmo que chocolate não seja o meu forte. Tem um pouco de tédio nos seus olhos, toda vez em que eu me olho no espelho. E não há um dia sequer em que eu não deseje sentir uma coisa ou outra – mas não é bem assim.

Não há dentro de mim uma coleção de potes separados e identificados como amor, ódio, saudade, desprezo ou desejo. O que existe é um imenso caldeirão onde tudo se mistura. E no fundo, é melhor assim. Ao menos não há culpa em querer e repelir tudo o que venha de você. Posso sentir falta do seu bocejar engraçado logo pela manhã ao mesmo tempo em que morro cada vez que me lembro do seu abandono. E essa noite, não foi diferente. Sonhei contigo (mais uma vez, mais de uma vez). Acordei às duas, puxei para mim o edredon, estiquei as pernas, fiquei com calor. Liguei a TV, desliguei o abajour.

Você estava lá, e eu me rendi (...)

Escrito por La Strega às 18h56
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30/06/2008


 

"Qualquer caminho leva a toda a parte
Qualquer caminho
Em qualquer ponto seu em dois se parte
E um leva a onde indica a estrada
Outro é sozinho.
Uma leva ao fim da mera estrada. Pára 
Onde acabou.
Outra é a abstracta margem
......
No inútil desfilar de sensações
Chamado a vida.
No cambalear coerente de visões
Do [...]
Ah! os caminhos estão todos em mim.
Qualquer distância ou direcção, ou fim
Pertence-me, sou eu. O resto é a parte
De mim que chamo o mundo exterior.
Mas o caminho Deus eis se biparte
Em o que eu sou e o alheio a mim
[...]"

 

(Fernando Pessoa)

 

***

Os sapatos abandonados sempre me intrigaram. Um pé de um lado da rua e o outro mais à frente, duas ou três quadras adiante. Quando são um par assim, eles me intrigam ainda mais. Quê diabos aconteceu a esse infeliz para deixar os dois pés abandonados desse jeito? Fico imaginando a história... estaria bêbado de tal maneira que enjoou dos sapatos e preferiu voltar à casa com liberdade nos pés? Há também a típica sandália feminina - daquelas que deixam os dedos à mostra, próxima à esquina, solitária... E dessa vez, o que será que aconteceu à pobre diaba? Saiu correndo para não perder o ônibus e acabou perdendo o pisante na pressa? Foi abduzida por seres alienígenas ou talvez... fugiu de uma perseguição alucinante entre amante e namorado? E há ainda o tênis lançado aos fios elétricos que ligam um poste a outro. Criança... coisa de criança na certa!

 

Enfim, são histórias que não me pertencem - mas que eu deliciosamente subtraio para mim, na esperança de fazer do mundo alheio algo mais interessante e desesperador que a minha própria incerteza. Há um quê de acalento, há de alguma forma um sabor doce de ilusão...

 

Penso nos sapatos perdidos por aí.

Penso na infinitude de caminhos que posso percorrer, nos sapatos que deixarei ficar, naqueles que abandonarei e nos outros que decidirei manter - guardados, esperando por novas ou talvez nulas caminhadas...

 

Escrito por La Strega às 12h47
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03/06/2008


Tabacaria

(Fernando Pessoa, em: Álvaro de Campos, 1928)

 

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu."

 

***

 

Hoje, em meio ao nada, compreendo tudo. E de tudo compreender, percebo que nada existe que seja tão permanente assim. Tudo flui, muda de sentido, troca de direção. Pra quê insistir no imutável? Ora, tudo se modifica! Basta tempo... E por mais que sempre tendamos a ser "os mais", vez ou outra nos tornamos um a menos num momento qualquer da trajetória. Ilusão, pura ilusão, como diriam os zen-budistas. Mas é por não desejar nada e nem pensar em coração algum nesse doce e ilusório agora, é que uma paz incrivelmente boa me invade inteira e eu não preciso avaliar coisa alguma, sequer decidir, tampouco escolher. Basta-me isso. Basta-me esse agora ilusoriamente perene... tardiamente interrompido...

 

Escrito por La Strega às 12h21
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29/05/2008


 

(Autor, nome e ano desconhecidos. Gentilmente cedido por Google Imagens)

 

 

“Estou pensando nos que possuem a paz de não pensar,
Na tranqüilidade dos que esqueceram a memória
E nos que fortaleceram o espírito com um motivo de odiar.
Estou pensando nos que vivem a vida
Na previsão do impossível
E nos que esperam o céu
Quando suas almas habitam exiladas o vale intransponível.
Estou pensando nos pintores que já realizaram para as multidões
E nos poetas que correm indefinidamente
Em busca da lucidez dos que possam atingir
A festa dos sentidos nas simples emoções.
Estou pensando num olhar profundo
Que me revelou uma doce e estranha presença,
Estou pensando no pensamento das pedras das estradas sem fim
Pela qual pés de todas as raças, com todas as dores e alegrias
Não sentiram o seu mistério impenetrável,
Meu pensamento está nos corpos apodrecidos durante as batalhas
Sem a companhia de um silêncio e de uma oração,
Nas crianças abandonadas e cegas para a alegria de brincar,
Nas mulheres que correm mundo
Distribuindo o sexo desligadas do pensamento de amor,
Nos homens cujo sentimento de adeus
Se repete em todos os segundos de suas existências,
Nos que a velhice fez brotar em seus sentidos
A impiedade do raciocínio ou a inutilidade dos gestos.
Estou pensando um pensamento constante e doloroso
E uma lágrima de fogo desce pela minha face:
De que nada sou para o que fui criada
E como um número ficarei
Até que minha vida passe.”

 

(Adalgisa Nery)

 

 

***

 

São 6h08 da manhã quando o sarcástico trim-trim-trim me atira consciência abaixo. E antes que as pequenas (in)decisões cotidianas sejam tomadas, eu ainda penso na completa falta de sentido que o alvorecer me traz. “Acorda!”, eu ouço ruidosamente dentro da cabeça. “Acooooooorda!”, e o estrondo é maior. E eu acordo. Mas não totalmente, porque parece que durante o dia eu ainda permaneço imersa em tolas ilusões feitas com bola de sabão e água mineral. Parece tão bonito, colorido e transparente... mas basta um estalo e puft! Já era...

 

--Talvez a abstinência nunca passe, Raven.

 

É... talvez. Pode ser que seja assim mesmo, pensei. Mas de qualquer forma, eu preciso acordar. Acordar e deixar de lado as bolinhas de sabão, as bonecas de louça e as outras promessas de criança que eu precisei acreditar. “Acorda!”. Acorda e deixa de ser o brinquedinho na estante empoeirada da mesa ao lado. Acorda de uma vez e despreza essas migalhas de amor que não enchem a barriga de ninguém. Acorda... nem que seja para ficar insone por tempo indeterminado, até cansar de ser boneca, até perceber que ser brinquedo uma hora cansa - cansa quem brinca e quem se deixa brincar. Cansa e fica ali, o brinquedo encostado no canto...

 

Escrito por La Strega às 17h19
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